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Crônica do cotidiano: feira, pastel e caldo de cana

  • 27 de mar. de 2017
  • 3 min de leitura

A temperatura exata eu não sei dizer, mas estava aquele calor relativo que te faz suar nas axilas caso fique muito tempo parado. O clima abafado não é novidade para os epitacianos, que culpam o represamento do rio Paraná pela quentura. Em suma, trata-se de uma quarta-feira de começo de outono.

Por volta das 17h, segui com a rotina das quartas: sair do serviço às 16h, tomar banho e me reunir com amigos na feira do redondo para comer pastel de carne com queijo, enquanto tomamos caldo de cana com limão. A feira na cidade acontece três vezes por semana, aos domingos nas ruas que contornam a Praça da Criança, as quartas como disse anteriormente e por fim as sextas, sendo uma feira menor próxima ao Posto de Saúde da Vila Maria.

Imagens Andress

O que gosto da feira de quarta, é a sensação de infinito. Por ser feita na praça do redondo, não importe o quanto você ande, não sairá dela. Cores contagiantes de frutas, verduras e legumes fazem um contraste com o pôr do sol que se aproxima cada vez mais. Lembro de estacionar o carro à uma quadra, verificar os bolsos em busca da carteira, trancá-lo e ir andando com meus chinelos azuis.

Enquanto me aproximava das barracas laranjas, verdes, brancas e amarelas, podia sentir o cheiro de fritura dos tachos de óleo quente e o aroma cítrico de frutas pokans e limões. Sei onde meus amigos me esperam, mas antes, decido dar um giro pelo infinito.

Pimentas vermelhas, laranjas verdes, bananas amarelas. Peças de porco, folhas de alface que gritam clorofila e por fim, pessoas que caminham, crianças que correm e idosos que pechincham por preços que façam jus a sua aposentadoria. Rostos familiares, mas não conhecidos. De onde estou, vejo o dono da barraca de churros que sempre passo depois do pastel. Vejo meus amigos também e vou até eles.

Os três me esperam em mesas de metal com um lugar vago, os cumprimento e faço o pedido para moça de cabelos negros e avental branco que está ao meu lado; um pastel de carne com queijo e um caldo de cana grande com limão, assim como eu, eles também fazem suas escolhas. Honrando sua fama, o pastel vem rápido como tudo que é feito na feira, junto, chega o caldo de cana verde espumento, com duas pedras de gelo.

Uma massa maior, num prato que não é meu, chama minha atenção. Guloso mais por ele que pelo meu pequenino, pergunto do que é; como resposta, vejo a fritura ser rasgada ao meio por mãos grandes, ao passo que de dentro sai bordas de cheddar e recheio de queijo derretido, cebola fatiada assim como a calabresa e rodelas de tomate vermelhinho.

Nesta hora, o céu já estava ficando de um tom azul escuro com manchas laranjas do pôr do sol mais bonito do Brasil. Precisava provar aquela iguaria da barraca branca da feira. Pedi um pedaço antes de dar um gole no copo de garapa, o gosto doce mascarado por traços azedos do limão tomaram meu paladar no momento em que minhas mãos recebiam nada menos que metade da bomba calórica escondida por massa frita.

Não vou negar que amei a primeira mordida, mas preciso admitir, a segunda foi ainda melhor, na quinta, ele já quase não existia. Precisei mudar minha rotina, o casalzinho da feira, mudaria de pastel de carne com queijo e caldo de cana, para pastel de calabresa, cebola, queijo, tomate e borda de cheddar com caldo de cana. Que minhas veias arteriais me perdoem.

Nesta quarta eu pulei o churros e antes de ir embora, comprei um pé de alface para me sentir mais fitness. No caminho para o carro, uma luz se acendeu sobre mim. Olhei para cima pensando ser Deus vir me buscar, confesso que iria feliz depois daquela deliciosa refeição, porém, era só um poste obedecendo o horário e dando luz à escuridão que o céu projetava.

No horizonte podia ver o amigo sol dizer tchau numa dança de cores, sorri branco, enquanto ele se despedia em uma explosão de roxo, azul, amarelo e laranja.

imagens Andress Mattos

Adoro quartas-feiras de feira.

 
 
 

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