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Crônica: sabedoria oriental da colher de pau

  • 11 de abr. de 2017
  • 2 min de leitura

Foi caminhando pela maior feira de Presidente Prudente, na Avenida Manoel Goulart, em um sábado de sol efervescente, às quatro da tarde, que me deslumbrei com ele e tudo o que tinha a sua volta. Diminui o passo e parei em frente a sua banca. Mas ele, concentrado em sua tarefa, nem sequer notou que eu o observava fixamente. Com pressa, decidi que retornaria sem falta na próxima semana. E assim o fiz.

Foto: Helissa Marangoni

Cheguei antes de a feira iniciar, por volta das 15h40. Quase não havia barraquinhas montadas, então fui perguntando aos feirantes onde o encontrava, o senhor japonês da colher de pau. E, aos poucos, fui direcionada a eles. Sim, eles. Deparei-me com um casal de senhores: ela retirava os pertences do carro, ele erguia a barraca com muito esmero, apesar de cada objeto lhe parecer pesado para a idade que aparentava.

Fiquei em silêncio e observando à distância. Até que, finalmente, ela começou a organizar aquelas de quem fui à procura: as colheres de pau. Era de uma variedade imensa, entre tamanhos e formatos. Também vi facas, cutelos, tabuas de corte, escamador de peixe e até hashis. Com tantas opções, minha curiosidade se aguçou e me fez aproximar. Ela, dona Sazako Moreguchi, 77 anos, e seu esposo Kazuo Moreguchi, 80 anos, revelaram-se pessoas de garra e humildade.

Foto: Helissa Marangoni

Kazuo, com a mesma concentração da semana anterior, conta que é o artista que fabrica as colheres de pau por meio do bambu. Além das colheres, também faz cabos para facas e até as laminas de corte por meio do alumínio que recebe como doação. Afiação e conserto de facas velhas também são feitas pelo senhor. Sazako conversa comigo enquanto coloca preços nas colheres, desenhando os números com muito carinho, e me diz que contribui com o que for necessário: lixar, dar acabamento, ou até “tirar os modelos” dos programas culinários japoneses que assiste e repassar ao marido.

Há 20 anos, após voltarem ao Brasil vindos do Japão, os senhores desempregados viram no hobby a oportunidade de garantir a vida. Começaram ali, naquela mesma feira, e com poucos conhecidos o movimento era baixo, mas após tanto tempo - perceptível enquanto conversávamos - a admiração de quem passava pelas colheres ficava estampada no olhar, o trabalho talentoso que vendiam chamava a atenção.

Foi uma lição de vida para uma jovem como eu. Com os filhos já casados e vivendo em outras cidades, fazem todas as tarefas por conta própria e mesmo com aquilo que parecia uma rotina, os Moreguchi cuidavam de cada detalhe como se fosse o primeiro dia de trabalho. A energia daquele pedaço de chão, a madeira, o casal, me fez perceber que as mais simples das coisas são as mais belas, saí de lá com um pouquinho da sabedoria oriental da colher de pau.

 
 
 

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